LES BELLES PERSONNES

Conheça Ann Muana

Entre o Rio, o desenho e as histórias que permanecem

Artista franco-congolesa que vive no Rio de Janeiro, Ann Muana transita entre desenhos minuciosos em caneta Bic e pinturas intuitivas de grande escala.

Em sua obra, contemplação e movimento coexistem. Figuras femininas encontram o sol, a lua e o mar em um universo atravessado pela natureza, pela memória e pelas muitas formas de pertencer.

Para Les Belles Personnes, Ann veste CE QUI RESTE em um encontro entre arte, corpo e tempo. Linhas, símbolos e relevos acompanham seus gestos e compartilham algo com seu trabalho: delicadeza e presença, transformação e permanência.

Les Belles Personnes é uma série que celebra pessoas que inspiram pela maneira como vivem, criam e olham para o mundo — encontros nos quais a vida cotidiana se transforma em poesia.

   

 

ENTREVISTA

Toda criação nasce de uma história. Gostaríamos de começar pela sua. Como as suas origens — os lugares, as pessoas e as memórias que a formaram — continuam presentes na artista que você é hoje? E de que maneira o Rio de Janeiro atravessa o seu olhar e o seu trabalho?

Sou filha de uma mãe francesa e de um pai congolês. Cresci entre duas culturas que não são apenas diferentes, mas que também carregam uma história de tensões, marcada pela colonização e pelas suas consequências até hoje.

Isso faz com que eu esteja constantemente entre lugares. Na França, as pessoas ainda me perguntam de onde eu sou porque eu sou preta. No Congo, elas também me perguntam de onde eu sou porque, para elas, eu sou branca. Nos dois lugares, eu pareço sempre vir de outro lugar.

Foi no Brasil que essa pergunta mudou de sentido. Aqui, as pessoas olham para mim e perguntam, quase surpresas: “Você não é brasileira?”. Acho que isso acontece porque o Brasil é um lugar onde influências europeias, africanas e indígenas convivem de uma maneira muito viva. Talvez essa mistura exista de forma mais inconsciente para quem nasceu aqui, mas, para mim, ela sempre foi muito visível.

 

Passei muitos anos sentindo que precisava explicar de onde eu vinha. No Brasil, pela primeira vez, tive a sensação de que não precisava mais escolher uma resposta. Gosto de pensar que foi aqui que essa dualidade finalmente conseguiu coexistir em paz.

Existe um instante em que você percebe que um desenho precisa existir? O que costuma dar início ao processo: uma lembrança, uma conversa, uma paisagem, um silêncio ou algo que ainda não sabe explicar?

Essa é uma pergunta muito difícil, justamente porque eu não acredito que exista um único começo para um desenho.

Pode ser uma lembrança, uma conversa, uma paisagem, uma fotografia, uma cena de um filme ou até uma ideia que aparece do nada e que eu anoto no meu caderno para não esquecer. Às vezes, um desenho também nasce de outro desenho. Vou criando um vocabulário visual e sinto vontade de continuar explorando aquele universo.

Acho que existe uma diferença entre o início de um projeto e o início de uma criação. Quando recebo uma encomenda, o ponto de partida costuma ser mais claro: existe uma demanda, uma pesquisa, um caminho a seguir. Mas, mesmo nesses casos, tenho a impressão de que a verdadeira origem do trabalho vem de um lugar muito anterior. As referências, as imagens e as perguntas já estavam crescendo dentro de mim antes mesmo de o projeto existir.

Talvez seja por isso que eu tenha dificuldade em apontar um único instante. Tenho a sensação de que estou sempre colecionando imagens, conversas, leituras e sensações. Em algum momento, sem que eu saiba exatamente quando, elas encontram uma forma e pedem para existir.

 

Ann usa Colar Riacho, Chocker Continuidade

As suas obras parecem habitar um espaço muito delicado entre força e leveza. Há uma poesia nas linhas, mas também uma presença muito marcante. Como essa linguagem foi sendo construída ao longo da sua trajetória?

Sempre desenhei. O desenho foi quase uma linguagem materna para mim, e foi isso que me levou a estudar Belas Artes.

Durante muito tempo, meu desenho esteve muito ligado ao controle. Sou uma pessoa profundamente perfeccionista, e a escola de arte reforçou bastante essa exigência. Ao mesmo tempo em que éramos incentivados a encontrar uma linguagem própria, também nos sentíamos constantemente observados e julgados. Era um paradoxo difícil de viver.

Descobrir a caneta Bic foi um ponto de virada. Com ela, não existe volta. O traço permanece. De certa forma, ela me ensinou a confiar mais nas minhas próprias decisões. Aos poucos, fui construindo uma linguagem muito minuciosa, quase meditativa, feita de tempo, repetição e pequenos detalhes.

Mais recentemente, senti necessidade de explorar o caminho oposto. Comecei a fazer desenhos muito mais intuitivos, com um traço rápido, espontâneo e decidido. Não é uma ruptura com o que eu fazia antes, mas uma nova forma de confiança.

Hoje, essas duas linguagens convivem no meu trabalho. De um lado, os desenhos em caneta Bic, delicados e concentrados, que raramente ultrapassam o formato A3. Do outro, pinturas em grande escala, que podem chegar a três metros de altura, onde o corpo inteiro participa do gesto. Apesar de tão diferentes, sinto que elas se complementam. Uma nasce da contemplação; a outra, do movimento. No fundo, as duas falam sobre a mesma busca: encontrar uma linguagem que seja cada vez mais honesta comigo mesma.

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Ann usa Colar Entreluz, Colar Bossa, Brinco Tournesol e Earcuff Vestes

O sol, a lua e o mar aparecem com frequência na sua obra, quase como símbolos que atravessam diferentes histórias. O que eles representam para você? E como esses elementos ajudam a traduzir aquilo que nem sempre pode ser expresso em palavras?

O sol, a lua e o mar são, antes de tudo, meus pontos de âncora no mundo. São elementos que me lembram constantemente que fazemos parte de algo muito maior do que nós mesmos.

A arte, para mim, também é uma forma de fazer perguntas. Sobre por que estamos aqui, como habitamos este mundo e como nos relacionamos com tudo o que existe. Talvez seja por isso que esses elementos apareçam tantas vezes no meu trabalho. Eles me ajudam a me situar, a lembrar do meu lugar dentro de um todo.

Tenho uma relação muito intuitiva com os ciclos da natureza. Gosto de observar o nascer do sol, me sinto profundamente conectada à lua e às suas fases, e acredito que esses ritmos têm muito a nos ensinar. Também me identifico com tradições de matriz africana e com o animismo, que entendem que a natureza não é apenas um cenário, mas uma presença viva, com a qual estamos em constante relação.

Quase sempre esses elementos aparecem acompanhados de figuras femininas. Para mim, a mulher representa a origem, a criação e a continuidade da vida. É uma forma de lembrar que somos parte da natureza, e não algo separado dela.

Talvez seja por isso que o sol, a lua e o mar voltem tantas vezes ao meu trabalho. Eles são uma maneira de traduzir, em imagens, aquilo que nem sempre consigo explicar com palavras.

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Na Grasse, acreditamos que alguns objetos atravessam o tempo porque carregam histórias, e não apenas beleza. Existe alguma joia, adorno ou objeto que acompanha a sua vida há muitos anos? O que faz com que ele continue fazendo sentido para você?

Existe um anel que meu pai me deu quando eu ainda era criança. Na época, ele era grande demais para mim. Hoje, curiosamente, ele serve perfeitamente. É uma joia muito simples, feita de cobre, latão e malaquita, uma pedra muito presente na região do Katanga, no sul da República Democrática do Congo, de onde meu pai era.

Depois que ele faleceu, esse anel ganhou um significado ainda maior. Quando o uso, sinto que carrego comigo não apenas uma lembrança dele, mas também uma parte da história da minha família e das minhas origens.

Talvez seja por isso que me identifiquei tanto com as joias da Grasse. Gosto da ideia de que uma joia possa atravessar uma vida inteira e ganhar valor pelas histórias que acumula ao longo do tempo, e não apenas pela sua beleza. Também me reconheci nos símbolos do sol e da lua presentes nas coleções, porque eles fazem parte do meu imaginário e aparecem com frequência no meu próprio trabalho.

Se pudesse guardar apenas uma pequena beleza do cotidiano para levar consigo pelo resto da vida, qual seria?

O nascer do sol.

É o momento do dia que mais me emociona. Sempre que posso, gosto de acordar cedo para assisti-lo. É como um lembrete silencioso de que todos os dias existe a possibilidade de um recomeço e de que fazemos parte de algo muito maior do que nós mesmos.

Também gosto da ideia de que algumas das maiores belezas da vida são justamente aquelas que não precisamos possuir. Elas simplesmente existem, e basta estarmos presentes para contemplá-las. Se eu pudesse guardar apenas uma pequena beleza do cotidiano para levar comigo pelo resto da vida, seria essa.

 

Aquilo que permanece

Na Grasse, acreditamos que uma joia pode guardar mais do que beleza. Ela carrega gestos, memórias e histórias que atravessam o tempo.

O Colar Riacho, o Colar Âncora e o Brinco Vestígios, escolhidos por Ann Muana, fazem parte de CE QUI RESTE, uma coleção criada para morar na intimidade da pele e acompanhar aquilo que permanece conosco.

Em suas linhas, símbolos e relevos, as peças encontram o universo da artista: a natureza como presença, o tempo como matéria e a memória como uma forma de pertencimento.

Descubra a coleção completa e encontre nas semijoias Grasse peças para acompanhar a sua própria história.

Conheça a seleção de Ann Muana aqui.